A
empresária Alba Souza estava cumprindo seu ritual diário de caminhada na Praia
do Flamengo, por volta das 6h deste sábado (31), quando se deparou com um
objeto estranho na areia. Em outro ponto da caminhada, mais um igual. De longe,
parece uma pedra. De perto, é difícil precisar. Mas esses não são os únicos
pacotes misteriosos a aparecerem por aqui. No dia 27 de julho, um material
muito semelhante foi encontrado na Praia de Santo Antônio, em Mata de São João,
litoral norte da Bahia. E, agora, o mais curioso: se trata de parte da carga de
um navio nazista afundado no dia 4 de janeiro de 1944, em plena Segunda Guerra
Mundial.
Alba mora
na Praia do Flamengo desde 2000 e nunca viu nada parecido. Já teve tartaruga
morta e resquícios das antigas barracas de praia, mas nada como os pacotes que
encontrou neste final de semana. O achado incomum pegou a empresária de
surpresa e veio para quebrar a rotina de quem já passou por diversos países,
mas optou pela calmaria de uma casa em frente ao mar de Salvador.
“Vi o
fardo praticamente na porta da minha casa. Assim que eu desci para a praia, já
achei estranho. Primeiro, achei que era uma pedra porque aqui sempre aparecem
blocos que são das antigas barracas”, conta Alba. Quando se aproximou, veio
outra suspeita. "Vi que parecia couro de cobra, porque lembra uma escama.
Fiquei intrigada achando que era contrabando de peles que alguém jogou no porto
de Salvador”.
Alba
encontrou, no sábado, o primeiro fardo na porta de casa e outro na direção do
autódromo de Ipitanga. Na manhã deste domingo, um material com as mesmas
características estava bem próximo à sua casa. Não é possível dizer se trata-se
de um dos encontrados no sábado ou se são três achados, já que a maré pode ter
levado e trazido de volta.
A
empresária conta que conversou com funcionários da prefeitura que faziam a
limpeza da praia. Segunda ela, eles disseram que tentaram remover o material,
mas o peso, aproximadamente 200 quilos, deixou a missão impossível. “Eles
falaram que não tinha como, era muito pesado, que iam esperar uma máquina”.
O
material incomum atrai olhares de quem passa na areia e os mais corajosos se
aproximam. De início, vem o medo de encostar. O pacote não é muito grande, o
que aumenta ainda mais a curiosidade por conta do peso elevado. Ao se
aproximar, é possível perceber, em partes rasgadas, que se trata de algo
borrachudo, possível de esticar. Envolta, limo e alguns resquícios de conchas.
A
expressão de quem se aproxima é de dúvida e logo surgem os palpites. “Parece um
livro gigante”, “É um pedaço de madeira”, “Acho que é um baú”. Uma testemunha
bateu o olho e já soltou um palpite quase preciso: “Isso é coisa de pirata.
Deve ter um tesouro aí dentro!”. À essa altura do texto, você, leitor, deve
estar se perguntando o que esses pacotes têm a ver com navio de nazista. Então,
vamos à explicação!
O CORREIO
noticiou na edição de fim de semana o pacote encontrado em Mata de São João e
encontrou a provável origem de todo esse mistério. Ela envolve nazistas, armas,
piratas e até o óleo que contaminou as praias do litoral nordestino em 2019.
Quem desvendou o quebra-cabeças foi o oceanógrafo Carlos Teixeira, professor da
Universidade Federal do Ceará (UFC).
Desde
agosto de 2018, fardos parecidos foram encontrados em praias do Ceará, Rio
Grande do Norte, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e até na Flórida, nos Estados
Unidos. Pesquisadores notaram um detalhe: uma inscrição dizendo “Made in
Indochina”. Essa colônia francesa foi desfeita em 1954, dando lugar a países
como Laos, Camboja e Vietnã. Ou seja: o que quer que fossem os objetos, eles
tinham sido produzidos há, ao menos, 65 anos.
Carlos
Teixeira encontrou um vídeo de 1944 que mostrava pescadores recolhendo objetos
parecidos nas águas nordestinas. Os fardos em questão eram a carga de um navio
do Exército Nazista que foi afundado no dia 4 de janeiro daquele ano, no auge
da Segunda Guerra Mundial. Em um artigo, o professor explica que a borracha,
usada nos pneus e armas, não era produzida no território alemão e precisava ser
importada de lugares como a Indochina.
Para
percorrer os 10 mil quilômetros que separavam esses países, os alemães
utilizavam navios chamados “Blockade Runners”, que eram ágeis e conseguiam
furar os bloqueios marítimos feitos pelos Aliados. Também costumavam usar rotas
alternativas, contornando a América do Sul e chegando à Europa pelo Oceano
Atlântico.
Mas nem
sempre a estratégia dava certo e, naquele 4 de janeiro de 1944, o SS Rio Grande
- o navio alemão usava um nome em português para confundir os inimigos - foi
interceptado pelo contratorpedeiro USS Jouett e pelo cruzador USS Omaha no mar
entre Natal e a Ilha de Ascensão, no nordeste do Brasil, ponto estratégico para
os Aliados - rivais dos nazistas.
Os
alemães tentaram fugir, mas foram abatidos pela Marinha Americana. Uma pessoa
morreu, 71 ficaram feridas e o navio, junto com sua carga, foi parar a 5,7 mil
metros de profundidade - e lá ficou até agosto de 2018.
O que
trouxe a carga de volta à superfície ainda é mistério, mas há duas teorias
principais: uma a de que o desgaste natural abriu um buraco no porão do navio,
deixando a borracha escapar. A outra, mais aceita, especula que um grupo de
piratas teria ido até o local do naufrágio para recuperar outros itens do SS
Rio Grande: 500 toneladas de estanho, 2.370 de cobre e 311 de cobalto, sendo
este último o objeto de desejo dos piratas.
No
processo de retirada do metal nobre, a borracha, que boia, teria escapado.
Então, as correntes marítimas completaram o serviço e, desde então, esses
“fardos misteriosos” têm aparecido nas praias do litoral nordestino.
Procurada pelo CORREIO, a prefeitura de Salvador informou que a Empresa de Limpeza Urbana de Salvador (Limpurb) foi acionada e irá verificar o material. A Polícia Civil disse que não houve registros e a Polícia Militar, a Marinha e o Inema não responderam até o fechamento da reportagem.
Fonte: Correio24horas


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