Uma operação da Polícia Federal na divisa do Pará
com o Amazonas culminou na maior apreensão de madeira nativa da história do
Brasil. Ao longo dos últimos dias, os agentes retiveram 131,1 mil m3 de toras,
volume suficiente para a construção de 2.620 casas populares.
As 43.700 toras estão dispersas por diversas
esplanadas (pátios de madeira) ao longo dos rios Mamuru e Arapiuns, uma região
de 20 mil km2, tamanho comparável a Sergipe.
O cálculo da apreensão é preliminar e considerado
conservador pela PF. Haverá uma perícia mais apurada nos próximos dias com o
apoio do Exército, no marco da Operação Verde Brasil 2. O Ministério Público
Federal acompanha a operação por meio do procurador da República Leonardo
Galiano, que visitará a região nesta semana.
"É uma área que estava sofrendo uma
devastação irracional, que de forma alguma pode ser chamada de manejo
florestal", afirma o superintendente da PF no Amazonas, Alexandre Saraiva,
comandante da operação. "O comércio ilegal de madeira sofrerá um baque
muito grande com esse trabalho."
A operação foi batizada de Handroanthus GLO, que
une o nome científico do ipê, a árvore mais cobiçada pelos madeireiros na
Amazônia, à sigla da Garantia da Lei e da Ordem, o marco legal que autoriza o
emprego das Forças Armadas no combate a crimes ambientais na Amazônia.
O recorde de apreensão havia ocorrido em 2010,
quando foram apreendidos cerca de 65 mil m3 na Reserva Extrativista (Resex)
Renascer, também no oeste do Pará. O volume é a metade do que foi retido na
semana passada.
A operação começou após a apreensão de uma balsa
com 3.000 m3 de madeira com documentação irregular no rio Mamuru, município de
Parintins (AM), em 16 de novembro. As toras haviam sido extraídas no Pará, mas,
para transportá-las, é preciso passar pelo estado vizinho.
A partir das informações obtidas sobre a origem
das toras, a PF analisou imagens de satélite da região via sistema Planet, de
alta precisão. Em seguida, policiais fizeram um sobrevoo de helicóptero, que
filtrou os pontos de interesse de 120 para 40 locais, com quantidades de
madeira variando entre 10 mil m3 e 30 mil m3.
"Tudo isso é resultado das novas
tecnologias, uma inevitabilidade histórica. Não há mais como voltar ao tempo em
que se podia saquear a Amazônia impunemente, contando com o tamanho da
floresta", diz Saraiva. "Sem o Planet, não teríamos esse alcance
todo."
Para o delegado, o Planet, de uma empresa
privada, tem uma função complementar ao monitoramento do Inpe (Instituto
Nacional de Pesquisas Espaciais), do governo federal. "No Inpe, o foco é a
detecção, a estatística, estudo, políticas de governo, tem imagens antigas. Por
outro lado, Planet nos dá agilidade, é voltado ao trabalho policial. É uma
ferramenta de investigação não só para o meio ambiente e fornece uma resolução
temporal de no máximo 24h de toda a Amazônia."
FRAUDES
Saraiva e o procurador Galiano trabalharam juntos também na Operação Arquimedes, que apreendeu 9.000 m3 de madeira serrada no porto de Manaus. As investigações, iniciadas em 2017 e feitas em conjunto com o Ibama, revelaram o envolvimento de 63 empresas e de funcionários públicos para esquentar a extração ilegal de árvores em Rondônia, em Roraima e no Amazonas.
Nas duas investigações, as organizações
criminosas de madeira aparecem se beneficiando de fraudes nos DOFs (Documentos
de Origem Florestal) para esquentar madeira. A guia é obrigatória para o
transporte de madeira no país, sejam toras ou já beneficiadas.
O documento é emitido pelo Ibama e por dois
estados que possuem sistemas próprios, Pará e Mato Grosso. Na avaliação de
ambos, o maior controle do setor madeireiro passa necessariamente pelo
aprimoramento do sistema. "O principal insumo para a tentativa de
introdução de madeira ilegal é o DOF", afirma Galiano.
O combate à madeira ilegal foi o tema principal
de uma reunião do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, com Galiano,
Saraiva representantes do governo estadual e empresários. O encontro ocorreu em
Manaus na quarta-feira (16).
Dois dias depois, o Ibama enviou ofícios aos
governos do Mato Grosso e do Pará cobrando a integração dos sistemas estaduais
de controle de origem de produtos florestais ao DOF em um prazo de 90 dias. A
medida está prevista no Código Florestal de 2012, mas até hoje não foi
implementada.
Caso os dois estados não realizem a integração
dentro do prazo, o Ibama informou que fará o bloqueio imediato de emissão de
documentos em ambos estados.
Com experiência de dez anos na Amazônia, Saraiva assegura que os processos administrativos fraudados são o principal responsável pelo desmatamento ilegal.
"O desmatamento de hoje foi autorizado e incentivado por processos de décadas atrás. São anos de descontrole, com a concessão de autorização de corte de floresta. A maioria foi aprovada sob o argumento falso de que iria implementar, além do plano de manejo, agricultura ou gado. Isso não é compatível com o que a gente encontra no local."
Fonte: Notícias ao Minuto

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